Elaine Leme
Ontem, eu fui no Sesc Pompéia conhecer a exposição "Cuide de você" da francesa Sophie Calle - que convocou 107 mulheres de diversas profissões para analisar a carta de rompimento que recebera via e-mail de seu amado. Cada uma interpretou, analisou, comentou a carta no lugar da Sophie usando o seu ponto de vista profissional. Fiquei lá horas refletindo o que fez aquela mulher expor ao mundo sua angústia e tristeza. E o que eu diria pra Sophie se eu fosse uma das selecionadas.
Agora segue a carta que Sophie recebeu:
"Sophie,
Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Uma éspecie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecessemos, você impôs uma condição: não ser a "quarta". Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as "outras", não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.
Achei que isso bastasse, achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e "generoso", se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que me "desassossego" se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as "outras".
E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando.
Jamais menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história; no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R....) e compreensível (obviamente....); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita.
Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecessemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá. Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quandot eu ter se tornado irrmediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide de você.
X."
Gostaria de saber de vocês se alguém já termino algum relacionamento por escrito? Ou se alguém já rompeu com você dessa forma?
Independente do que venham pensar da carta...achei o final inesperado.....Cuide de você.
*******
Para conhecer melhor o seu trabalho entre no site: http://www.sophiecalle.com.br/
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Reações: 
5 Responses
  1. Teka Says:

    Eu nunca terminei um relacionamento por e-mail. Já terminei por telefone. Dizem ser ridiculo mas foi assim que aconteceu. Eu já queria terminar e fui pro encontro decidida a isso. Lá, conversa vai , conversa vem, disse que então eu ia tentar segurar mais a onda. Cheguei em casa irritada, pq não queria mais aquela pessoa por perto, liguei e terminei de uma vez.


  2. Anônimo Says:

    nunca terminei qualquer relacionamento por escrito, mas ja ouvi um texto parecido com esse: "Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecessemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá." - ninguém me disse pra cuidar de mim...acho 'bonito' isso, acho até muito atencioso isso: "cuide de você" - porque de fato é preciso que a gente cuide da gente para que possamos cuidar do outro, mas normalmente pensamos em cuidar do outro, viver a vida do outro, para depois querer uma vida a dois. Mas qdo isso acontece, a vida já passou a ser uma só, de tanto que vivemos o outro. E nem sempre isso é bom...

    bjs,
    Serafina


  3. Anônimo Says:

    Elaine,

    Agora entendi sua mensagem na sexta, pensei que era algum filme que vc tinha ido assistir...hehehe
    A exposição é emocionante mesmo, a artista tem uma super sensibilidade.

    Ao pensar na sua pergunta, me veio um fato que ocorreu comigo, eu até tinha esquecido. Eu já terminei um relacionamento por carta, não lembro o que escrevi, pq faz muito tempo, eu tinha 14 anos. Mas foi uma carta para um namorado que eu tive, ele morava em Minas e nosso namoro não era de longa data, mas trocavamos mensagens por telegrama e tudo, nossa como faz tempo...kkkk, nem tinha celular e pager naquela época. Era carta e telegrama, olha que nostalgico!.
    Mas, sei que não causou danos morais, a pessoa depois de uns dois anos se casou, tem filhos e acho que vive feliz para sempre. Eu espero!
    Veja que coisa, ele tbem era mais velho do que eu, tinhamos uns 10 anos de diferença de idade e ele tbem morava no interior e aquele ali tbem nunca sairia do mundo dele para viver no meu...hehehe, acredito que tenha sido este um dos motivos.

    Beijos, Bia


  4. Acho a palavra escrita um dom, algo que supera muita coisa. No entanto, há situações em que é preciso olhar nos olhos, ver a reação, sentir.
    Achei a carta linda.
    E Laine, sim, cuidar de você, às vezes, é o que nos resta de melhor a fazer.
    Bjs


  5. Teka Says:

    lembrei de vc ontem!
    Na sala de espera do consultório médico que eu fui ontem, tinha a Marie Claire de junho, com uma entrevista com o escritor de livros e escritor dessa carta rs